BDRA-22-Das florestas do Rio para os jardins do mundo
Edith de Fátima Gonçalves Furtado Lima Revista Terra da Gente-Campinas, SP abril 2008
Levada há mais de 240 anos para a corte francesa, a primavera se amoldou aos jardins de todos os continentes e segue se desdobrando, nos mais variados matizes, como a mais encantadora de nossas plantas ornamentais
Ela nasceu brasileira. Enfeitiçou, com a inflorescência violeta, os olhos de um militar parisiense e ganhou identidade francesa: Bougainvillea nyctaginaceae. O nome é uma homenagem a esse militar, Louis-Antoine de Bougainville, primeiro navegador francês a dar volta ao mundo no comando de uma expedição científica, entre os anos de 1766 e 1769, a bordo da fragata La Boudeuse. Segundo registram os arquivos de viagem, o grupo - do qual também fazia parte o botânico Phillibert Commerçon - teria passado pelo Brasil e descoberto a espécie nas serras do atual Estado do Rio de Janeiro.
Fascinado pela planta, o comandante levou diversos exemplares para a França e os ofertou ao rei Luís XIV. Aí teve início a disseminação - pelos jardins reais, pelas cidades francesas, pelas colônias européias e para todo o mundo - dessa trepadeira popularmente conhecida, aqui no berço de origem, por primavera, ceboleiro, três-marias e flor de papel, entre outros nomes. "Poucas são as plantas ornamentais que, em beleza, intensidade de florescimento e rusticidade, podem ser comparadas à bougainvillea", escreveu, em 1954, o agrônomo e pesquisador Emílio Bruno Germek. Ele trabalhou com a espécie por quase meio século no Instituto Agronômico de Campinas, o IAC.
Cientista incansável, Germek estudou as sementes no interior das brácteas, folhas naturalmente modificadas que envolvem as verdadeiras flores, branco-amareladas e bem pequenas. Na forma e tamanho, as sementes se assemelham a grãos de trigo. Sua observação permitiu desenvolver uma técnica de hibridação artificial, graças à qual as brácteas ganharam variedade e o agrônomo brasileiro obteve reconhecimento internacional. "Fiz a hibridação dos tipos e cores e divulguei ao mundo todo, quando era chefe da Secção de Introdução de Plantas do Instituto Agronômico de Campinas, porque me encantei pela primavera", conta. "A mudança de cor é feita através do enxerto, na intimidade da flor".
A experiência resultou num conjunto exótico de formas e cores, do salmão ao vermelho intenso, passando por tons de rosa, maravilha, ferrugem, lilás e até bicolores. Na África, os cientistas do Quênia se valeram do processo de melhoramento nascido nos laboratórios do IAC e conseguiram transformar as sementes brasileiras, chegando a inflorescências do branco mais puro do planeta.
A primavera fincou raízes mundo afora, notadamente nos cenários mediterrânicos, mas não perdeu as características de uma nativa tropical legítima. Adora o sol, o calor e a luminosidade para exibir, com força, os seus matizes no campo e na cidade, colorindo praças, canteiros, ruas e alamedas, trançando pérgulas nos jardins urbanos e caramanchões em chácaras modestas ou abastadas fazendas. Resistente às mudanças bruscas de temperatura, ela se adapta bem quando cultivada em vasos, nos lugares de inverno mais rigoroso.
Invasiva e 'espaçosa', a trepadeira de caule escandente - dependente de apoio de outra planta ou de uma estrutura especial para crescer - chega a 15 metros de comprimento quando atinge a fase adulta. "Eu uso primavera até para decorar sacadas de prédios", revela a paisagista Cássia Maria Pinto, de Batatais (SP). No ramo há mais de 25 anos, ela e o marido elegeram a primavera como a preferida para a ornamentação.
Rústica e flexível, a planta é facilmente moldada com o uso de poda técnica adequada. Nas mãos da paisagista Cássia Pinto, pode se transformar até em delicados bonsais. Na natureza, ao brotar no meio do mato - onde há fartura de luz, espaço e nutrientes no solo -, vira árvore de grande porte. E ao encontrar condições ideais, como na região Sudeste e no Cerrado brasileiro, multiplica-se em sua versão dobrada, com inflorescências ainda mais exuberantes.
Dentre as várias espécies hoje catalogadas no Brasil, duas são especialmente populares: Bougainvillea glabra, com florada contínua, pequenas folhas e espinhos miúdos, quase imperceptíveis, em toda a estrutura: do tronco aos galhos; e B. spectabilis, geralmente indicada para a proteção de muros e áreas externas, com espinhos duros e pontiagudos, caule longo, folhas grandes e 'flores' densas e aveludadas, simples ou dobradas. Em ambas, a explosão de cores é marca registrada.
No município de Itajaí, em Santa Catarina, a planta de grande efeito ornamental virou símbolo, pela Lei Municipal 4.573, sancionada pelo prefeito Volnei José Morastoni em maio de 2006. Mais de 25 mil pessoas atenderam ao apelo da campanha Itajaí Saudável, votando pela internet, indo às urnas, e nos postos de votação espalhados nas 62 escolas públicas e particulares da cidade. "O processo visava especialmente uma educação ambiental forte em nosso município", disse Juarez Muller, assessor especial de Meio Ambiente. Mas, na eleição, 8 plantas nativas também concorriam ao título de símbolo máximo da natureza.
Os eleitores ainda tiveram a opção de escolher qualquer outra candidata não cadastrada na cédula de votação, com a exigência de que fosse brasileira legítima. A espécie Bougainvillea glabra venceu o 'pleito verde' com quase 27% da preferência do eleitorado, seguida de perto pela medalhão-de-ouro (Cassia lepthophylla), segunda colocada com 24% dos votos válidos.
Consagrada nas urnas, a escolhida se exibe em toda a zona urbana do município e empresta seu charme à Rua das Bougainvilleas, no bairro Cidade Nova. Depois de conquistar o navegador francês, a beldade nacional mostrou ao mundo que o Brasil não tem em suas cores apenas o verde e amarelo. Aqui, tem primavera o ano inteiro, do mais tênue rosado ao poderoso vermelho-sangue.
(BOX 1 )
Para ter em casa
A primavera ou bougainvillea pode ser cultivada no quintal de qualquer casa, mesmo quando o espaço disponível é mínimo. Nesse caso, os paisagistas sugerem a escolha de uma única variedade, para ter 'flores' de uma cor só. O plantio pode derivar de mudas ou sementes, mas é necessário solo fértil e rico em matéria orgânica. Se a opção de plantio for pela semente, vale lembrar que as variedades de cores lilás e roxas são as mais comuns no mercado. Há, ainda, a possibilidade de você mesmo fazer a hibridação da planta e obter o seu matiz particular.
A germinação acontece um mês após a semeadura e o florescimento, 6 meses depois. As podas devem ser feitas entre julho e agosto, quando o clima é mais seco, e pedem orientação técnica para garantir à planta equilíbrio e floração abundante. Primavera gosta de calor, pouca umidade e muita luz. Regar, somente a cada 15 dias. Depois, é só deixar por conta da natureza.
(BOX 2)
Paixão irrestrita
Ciência como devoção, justiça como princípio e respeito incondicional pela natureza. Aos 94 anos, cercado do carinho da família, num bairro tranqüilo de Campinas, no interior de São Paulo, o pesquisador Bruno Emílio Germek continua sendo um avô singular para a jovem Thais Germek: "Por mais que eu viva e conheça pessoas, acho que nunca encontrarei alguém como ele. Um homem de inteligência rara e amoroso, capaz de criar sozinho os filhos, quando perdeu a esposa ainda moço".
Descendente de austríacos e italianos, Germek foi um dos estudantes mais brilhantes de sua turma, na renomada Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, localizada em Piracicaba e hoje ligada à Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Culto e poliglota - domina seis idiomas - ele tem mania de juntar caixas, parafusos, copos, fios e metais, só porque essa parafernália pode ganhar algum sentido prático sob o olhar atento do cientista.
O agrônomo movido a curiosidade científica não descobriu apenas a forma de trabalhar a semente da primavera. Seus experimentos trouxeram também a melhoria do arroz, da soja, do milho, do feijão-guandu, e de tantos outros alimentos, presentes todos os dias na nossa mesa. O discreto e elegante pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas, Bruno Emílio Germek, é, simplesmente, um amigo da Ciência.
(FIM)

