Devastação atinge 70% da mata nativa

Severino Lopes   Diário da Borborema - Borborema, RN   fevereiro 2002


A Paraíba assume o primeiro lugar no ranking dos Estados que mais devastam o meio ambiente. O Ibama estima que 17 mil hectares de lenha sejam retirados das matas paraibanas

A desertificação na Paraíba é maior do que se pode imaginar, conseqüência direta da ação devastadora do homem, que nos últimos 50 anos fez reinar a lei do machado e da serra elétrica, transformando num cenário lúgubre a maior parte da reserva florestal do Estado. O desmatamento corresponde hoje a cerca de 70% da mata nativa, número superior ao registrado em outros Estados do Nordeste, que é de 50% . O Ibama estima que por ano, cerca de 17 mil hectares de lenha sejam retiradas das matas paraibanas. A vegetação típica da caatinga, onde predomina a existência de árvores como Ipê, Umbuzeiro, Aroeiras e Catingueira, associada à ausência de um plano adequado de manejo florestal sustentável, contribuem para que a Paraíba lidere o ranking dos Estados que mais desmatam no Nordeste.

A estimativa do Ibama é que, se persistir o corte da floresta nativa , no prazo de 20 anos não haverá uma árvore sequer nas matas paraibanas. Com isso, a lenha utilizada como principal fonte de energia que abastece as indústrias de calcáreos e outras empresas responsáveis pelo desenvolvimento do Estado, desaparecerá por completo. "Isso seria uma catástrofe. A lenha representa mais de 50% da fonte energética do Estado. Uma fonte acessível que ainda impulsiona nossa economia", alertou Orozimbo Silveira Carvalho, diretor estadual do Ibama.

Preocupados com o alerta do órgão, os ambientalistas de todo o Estado estão criando a primeira Associação de Reposição Florestal do Estado. A entidade, segundo Orozimbo Silveira, teria como função sensibilizar o homem, no que diz respeito ao reflorestamento da área por ele devastada. Em suma, competiria a essa associação canalizar recursos utilizados na implantação de um plano de manejo florestal do Estado.

Os ambientalistas atribuem a quase extinção da flora paraibana, ao processo de urbanização e, principalmente, a utilização do carvão vegetal como fonte energética. Grande parte da lenha extraída de nossas matas abastece os fornos das olarias, das panificadoras e, as indústrias de calcáreos. Só em Campina Grande, segundo dados do Ibama, existem cerca de 70 indústrias operando.

O consumo de lenha dessas empresas é assustador. Para evitar a retirada clandestina, o órgão exerce um controle sobre cada uma delas, medindo com stério (unidade de medida) a quantidade de lenha consumida ao mês. Mensalmente elas consomem cerca 3.500 stérios. As panificadoras, uma das vilãs da natureza, gastam menos. Cerca de 800 stérios. Para se ter uma noção do prejuízo, 100 stérios correspondem a cinco caminhões de lenha. A retirada é feita legalmente. Isso porque as indústrias de calcáreo só podem operar com a autorização do Ibama, conforme prevê a Lei 9.605. De acordo com Marcos Ribeiro, diretor do escritório regional do Ibama em Campina Grande, para operar , as empresas obrigatoriamente têm que se cadastrar no órgão, procedimento feito pelo fornecedor a quem elas compram a lenha e que adquire no Ibama a ATPF - Autorização para Transporte de Produtos Florestais.

A maior preocupação do Ibama, no entanto, é com o lenha extraída na clandestinidade. E nesse sentido, a falta de uma política mais eficaz voltada para o meio ambiente, é outro fator que facilita a ação dos lenhadores e traficantes de madeira. Eles se aproveitam justamente da falta de aparelhamento do IBAMA para agir. Por abranger 68 municípios, o órgão não consegue fazer uma fiscalização eficiente, dependendo de denúncias para conter o uso indiscriminado da serra elétrica. Até mesmo as casas de farinha e os engenhos de cana-de-açúcar, que resistem à modernidade no Brejo paraibano, desmatam a natureza. A grande preocupação dos ecologistas é com o impacto ambiental causado pelo corte descabido de árvores. Segundo Marcos Ribeiro, a área devastada no estado precisaria de pelo menos 100 anos para se recompor.

"Infelizmente, nunca houve uma preocupação voltada para o replantio da área devastada", lamentou.

Ecologista diz que a Lei de Crimes Ambientais incentiva o desmatamento

O melancólico canto do canário pousando sobre um pé de Aroeiras, voando em seguida com destino a Baraúnas, árvores existentes no Cariri paraibano e que resistem à lei do machado e da serra elétrica, reflete uma das preocupações dos ambientalistas. A Mata Atlântica, a exuberante floresta tropical que quando selvagem, cobria um território pouco maior de 1.000.000 m², praticamente desapareceu do Estado, restando pouco mais de 3% de sua extensão original. São resquícios de uma das florestas mais ricas em biodiversidade do mundo, preservados graças ao trabalho da UFPB e dos ambientalistas. As últimas reservas do grande cinturão verde que há 100 anos cortava praticamente toda a Paraíba, encontram-se na mata do Buraquinho, em João Pessoa; a reserva de Pau- Ferro, em Areia; além de um pequeno trecho em Alagoa Nova. Até mesmo as árvores remanescentes da floresta que existia em São José da Mata desapareceram. A existência de apenas 20% da mata nativa, conseqüência da ação predadora do homem, que age como um furacão enfurecido, preocupa os órgãos que trabalham em defesa do meio ambiente como o Ibama e a Associação Paraibana dos Amigos da Natureza.

O ecologista Roberto Almeida, integrante da APAN e membro do Greenpeace, responsabiliza as indústrias, as olarias, os reservatórios de pneus e as padarias, por colocar o Estado em primeiro lugar no ranking dos que mais devastam na região. Na concepção do ecologista, secretário adjunto do Meio Ambiente, isso ocorre porque os grandes consumidores de lenha do Estado contam com a conivência da legislação. "Isso mesmo, a Lei de Crimes Ambientais 9.605, obriga os proprietários de terras a preservar apenas 20% da sua reserva ambiental. Isso é um incentivo ao desmatamento", comentou o ecologista. De acordo com ele, as olarias são as maiores inimigas do meio ambiente. Só na Paraíba existem cerca de 100, algumas inclusive atuando sem autorização do Ibama. Aproveitando-se da falta de estrutura dos órgãos ambientais, visto que a fiscalização não é eficiente, os lenhadores arrancam tudo o que encontram pela frente, até mesmo as árvores em processo de extinção, como o Umbuzeiro, o Ipê, a Catingueira, o Jatobá, a Aroeira e a Baraúna, essas duas últimas rigorosamente protegidas pela Lei por estarem na iminência de desaparecerem por completo. "A pena é severa para quem cortar um pé de Aroeiras ou Baraúna", alertou Roberto Almeida.

As conseqüências da desertificação

Os mais respeitados organismos ambientais do mundo como o Grenpeace, já alertavam as autoridades governamentais para as conseqüências do desequilíbrio do ecossistema, antes mesmo da realização da ECO 92 no Rio de Janeiro. O desmatamento da Floresta Amazônica, e a quase extinção da Mata Atlântica hoje reduzida a 7,3% de sua extensão original representariam uma permanente ameaça a sobrevivência do planeta.

Originalmente, a Mata Atlântica estava distribuída em uma área superior a 1,3 milhão de kmª, ocupando 15% do território nacional. As conseqüências do desequilíbrio ambiental,, já alertava os ambientalistas seriam drásticas. No futuro, o mundo iria travar uma guerra, não por petróleo ou disputa territorial, mas por água potável. É que a natureza iria reagir, transformando o planeta em um caos. O alerta, mostrando o futuro da humanidade mais parecia uma profecia apocalíptica, que está se cumprindo. As enchentes que hoje castigam o Sul do país, a seca que assola o Nordeste, as tempestades e outros fenômenos naturais, são conseqüências diretas do impacto ambiental; da ação devastadora do homem, que talvez por "ignorância ou falta de consciência ecológica", corta árvores, caça aves, mata animais silvestres - muitos em extinção, polui rios, e pouco faz para repor prejuízos incalculáveis causados ao meio ambiente.

No Nordeste especificamente, a escassez de água, conseqüência do desmatamento, levou o Governo Federal, através da Câmara de Gestão, a decretar o racionamento de energia. O apagão, fantasma que assombrou os nordestinos no ano passado, foi uma conseqüência direta da desertificação. O diretor do Ibama Marco Ribeiro tem uma explicação técnica. O que ocorre na Zona da Mata, segundo ele, é que em determinado período as folhas caem, deixando a terra impermeabilizada. Com isso, ao bater no chão, a água escorre, sendo protegida pela impermeabilização das folhas secas.

Essa impermeabilização permite ao lençol freático se manter úmido por um bom período, diferente de outras áreas que não têm a proteção da mata. Por conta da longa estiagem, algumas cidades do Nordeste a exemplo de Caruaru, Campina Grande e Patos, foram obrigadas a economizar água e energia, convivendo com um racionamento que lhes obrigou a mudar hábitos do dia-a-dia. A extinção da flora também provoca o fim da fauna. Isso porque, sem mata, os predadores naturais desaparecem, dando origem a pestes de gafanhotos, mosquitos e outros insetos. Até mesmo as pestes de ratos raros no passado mas que tem surgido nas periferias de Campina Grande, é resultado do desequilíbrio ambiental. Isso porque com o desmatamento, e o conseguinte fim dos predadores, a saída dos roedores foi fugir para as cidades.

Autorização para desmatamento é fornecida pelo próprio Ibama

Os órgãos que trabalham em defesa da preservação da natureza lamentam, mas a própria legislação favorece a depredação ambiental no Estado. O próprio Ibama, maior aliado dos ambientalistas, respaldado pela Lei de Crimes Ambientais 9.605 autoriza o corte de árvores, inclusive da mata nativa. Por conta disso é que os lenhadores entram em ação, derrubando por cerca de 1 milhão e 700 stérios, de árvores, o equivalente, a 17 mil hectares. A quantidade de lenha que pode ser explorada, conforme lembrou Marcos Ribeiro, depende de cada região. "A produção de um hectare varia de local para local", explicou. A diferenciação é grande. A madeira existente no Cariri é diferente do Curimataú e do Brejo. Vale lembrar que duzentos stérios, corresponde a um hectare. Para ter certeza que o proprietário está cumprindo o que determina a legislação, é que constantemente o IBAMA fiscaliza a área autorizada. Se for detectado irregularidades, a autorização é cancelada. A Lei 9.605 prevê uma severa punição para quem cortar árvores sem o devido consentimento do IBAMA, ou avança na reserva legal. A punição é de R$ 1.500 por hectare. Marcos Ribeiro garante que na Paraíba vários proprietários de terras pagaram multas por devastar ilegalmente a fauna. Quando a fiscalização pega um carro transportando madeira sem a Autorização de Transporte de Produtos Florestal -ATPF, o produto é apreendido, e o proprietário paga uma multa de R$ 100 a 500 por stério. E se transportar braúnas e aroeiras, a multa pode ser convertida em pena mais branda. Marcos Ribeiro atribui o corte clandestino das árvores no Estado, à ignorância do homem do campo, que não tem noção do mal que faz a natureza. Em alguns casos, é questão de sobrevivência mesmo. "Eles cortam para sobreviver", disse. O desmatamento no país e especificamente Paraíba, segundo Marcos Ribeiro, é reflexo de uma cultura herdada dos portugueses, que chegaram ao Brasil, com o interesse primordial de explorar o pau-brasil.

O processo de desmatamento, segundo ele, "progrediu durante os ciclos da cana-de-açúcar, do ouro, da produção do carvão vegetal, da extração da madeira, da plantação de cafezais e pastagens, do estabelecimento de assentamento de colonos, da construção de barragens e rodovias e, principalmente, em conseqüência do amplo processo de urbanização. "É um processo paulatino, mas constante".