Estresse faz quaresmeiras florirem

Aureliano Biancarelli   Folha de S.Paulo - SP   março 2002


Com o tempo de vida reduzido pela poluição, as quaresmeiras de São Paulo estariam dando floradas mais viçosas e mais frequentes. Alguns grupos da árvore, por conta do estresse da cidade, chegam a florir três vezes por ano.

Segundo biólogos e engenheiros, as plantas estressadas sabem que terão vida mais curta e produzem mais flores para garantir mais sementes e mais "descendentes". "A floração é a forma de perpetuação da espécie. Nas quaresmeiras, as mais velhas vão ficando cada vez mais exuberantes", diz Luiz Rodolfo Keller, engenheiro florestal e diretor do curso de jardinagem da Secretaria Municipal do Meio Ambiente.
"Não há estudos científicos, mas há anos observamos que as quaresmeiras são mais viçosas nas áreas que concentram mais automóveis, como a avenida 23 de Maio", afirma Keller.

A florada das quaresmeiras pode ser observada por mais algumas semanas em muitos parques e ruas da cidade. A Tidouchina granulosa, seu nome científico, é originária da mata atlântica e tem flores nas cores roxa e rosa. No Brasil, é conhecida como quaresma, ou flor de quaresma, porque suas flores coincidem com o período pós-Carnaval. Nos países de língua inglesa para onde foi levada, é conhecida como purple glory tree e princess flower.

Na mata original, a quaresmeira floresce duas vezes por ano -a outra florada, menos intensa, acontece em setembro/outubro- e chega a viver de 60 a 70 anos. "Com o estresse da cidade, elas vivem menos de 50 anos e podem florescer três vezes por ano", diz Keller. "As maiores vítimas do estresse são as quaresmeiras que se encontram isoladas nas ruas." Os vilões são o monóxido de carbono, produzido pela queima de combustível dos veículos, e o ozônio. A falta de adubação, o pequeno espaço para crescer e expandir suas raízes e as podas drásticas também apressam a morte das quaresmeiras. "A floração depende muito de fatores ambientais", diz a bióloga Célia de Assis. "Quando florescem, as plantas estão tentando produzir frutos e sementes para deixar descendentes. Quando submetidas a um estresse, as árvores sabem que podem perecer mais rápido."

Segundo Célia, existe uma lógica biológica no fato de a planta florescer mais quando ameaçada, como forma de preservar a espécie, mas ainda faltariam estudos científicos que possam comprovar essa relação.
O engenheiro agrônomo Eduardo Panten, do departamento de controle ambiental da Secretaria do Meio Ambiente, diz que as quaresmeiras estão exuberantes porque se adaptaram bem à s cidades. Para ele, elas são plantas que suportam bem a poluição atmosférica e suas floradas dependem dos períodos de luz. "A poluição por monóxido de carbono já foi maior em São Paulo", diz.

"Olhem nossas flores"

Pouco importa o que está por trás da exuberância das quaresmeiras, o importante é que estão colorindo a cidade, concordam os técnicos. "A florada das quaresmeiras é como se fosse o último grito do verde da cidade", diz Mario Mantovani, presidente da organização não-governamental SOS Mata Atlântica. "As árvores estão pedindo, "pessoal, olhem nossas flores"."

A bióloga e paisagista Alzira Maria da Rocha Cruz diz que a ameaça as quaresmeiras é seu plantio em local inadequado, que depois leva a podas drásticas.

"Elas chegam a 12 metros e atingem a fiação. Depois de várias podas, ficam deformadas e morrem." A maioria das quaresmeiras de São Paulo foram plantadas há aproximadamente 20 anos.

Poucos bairros têm variedade de cor

Quem observar as cores da cidade nesta época do ano vai notar que, além do roxo e rosa das quaresmeiras, há o amarelo das acácias e o carmim das paineiras. Em julho chegam os ipês rosa e roxo, em agosto, os amarelos.

O jacarandá-mimoso, de flores arroxeadas, é a primeiro a florir na primavera, dividindo as ruas com o amarelo das sibipirunas, encontradas na maioria das ruas.

Esse calendário de cores só é percebido em parques e bairros que tiveram algum planejamento, como Pacaembu, Jardins, Chácara Flora e áreas do Morumbi.

A prefeitura promete iniciar um inventário da arborização em São Paulo. O que se sabe, com base em levantamentos feitos em 1995, é que a cidade tem uma grande mancha de calor que vai do centro em direção àzona leste. Chega a 6°C de diferença, por conta da falta de árvores.
Em bairros da zona norte como Perus e Pirituba, o espaço de área verde por habitante chega a 144 m². Em bairros como Sapopemba, Vila Prudente, Guaianazes (todos na zona leste) e Capão Redondo (sul), a média é inferior a 1 m² por habitante. "São as regiões mais violentas da cidade", observa Caio Boucinhas, diretor do Depave (Departamento de Parques e Áreas Verdes) da Secretaria Municipal do Meio Ambiente.

A atual administração estuda um plantio com mudas adequadas a cada região da cidade, com parceria dos moradores. "Se o morador não adotar a árvore que está em frente àsua casa, ela não sobrevive", diz Boucinhas.